Mormaços
A manhã parece obrigar o cerrado
a não se despir por inteiro do verde
o azul como fibras de um tecido esgarçado
alinhavando vermelhos terrosos
permite que as árvores ásperas e nuas
se entrelaçam efêmeras
Descalça, sem arrimo
os pés vincando o piso de terra batida
Dona Aruína manuseia com gestos
de aparente surpresa e gratidão
o envelope de um branco duvidoso
rescendendo a mormaço.
Ocê num é de vê, Lori,
a vida com o tempo nos colore de cor
que a gente nem havia de conhecer
tôu eu agora olhando os retrato
que ocê tirou da véia aqui
e eu sei que ocê sabe
qu'eu num posso deixar de perguntar
é de ser assim mesmo com todas essas cor?
Tudo assim tão clarim, tão limpim
de um preto que difere da minha cor
e da cor qu’eu de vez em quando
arreparo nos claro do espelho.
Como é qu'eu num posso desconfiar, num é?
Eu mesma nem sei s'eu era de ser assim
tem ocasião qu'eu cismo de esmiuçar
certas indagações
sei que são esquisitices
mas vai assuntando procê vê
eu me chamo Aruína Leite Caldeira
e eu pergunto
s'eu tivesse era o nome da minha mãe
Jordilina Ramos Tavares
eu seria ela
seria de ser como ela foi?
Os passarim se eles num chamasse passopreto
bem-te-vi, beija-flor, eles haviam de voar
como eles haviam de viver
será se tudo num é de ser invencionice nossa
com as prerrogativa de Deus?
Pensa procê vê no qu'eu já falava pro finado
que Deus o tenha lá em um bom lugar
João, s'eu possuísse era o nome de minha vó
qu'eu dela mais quase nem conservo lembrança
e o mais correto é até dizer qu'eu nem direito a conheci
eu já tinha deixado de ser
ocê já num taria era viúvo
emancebando calor com uma outra qualquer?
O velho, Lori, desconversava resmungando mudez
tangia pra roça
preferia conversar com os paus de planta
a vida de casal é solidão de convivência no sozinho
no individual
Deus é que sabe e a gente num pode é esmorecer!
Mas num escondo não
aconteceu e muito
d'eu ter que clamar por Ele
Pai, uma coisa que nunca me faltou é a corage
os filhos, o Senhor sabe
tirei tudo e todos para a destinação
dos carreiros da vida
só com os acompanhamento da sua presença
forças nunca hão de me faltar
mas num esqueça da sua filha
é a coisa só qu'eu te peço!
E perdoa, Pai, s'eu tôu é blasfemando
num é de meu feitio
são as girizas da precisão!
Um jatobazeiro florescendo nuvens
agasalha de sombras os canteiros no quintal.
Contemplo Dona Aruína
os gestos cheios de ternura e alegria
a pele lavrada
as mãos calejadas
debulhando uma espiga de milho
e o olhar de ancestralidade maternal
zelando pelas bisnetas
em algazarra
cerzindo os bordados da infância.
O tempo, Lori, no despejar dos anos
faz seu trabalho
com ele de nada podemos
nem adianta de gastar empreita
o caminho é o nosso destino
no arriar dos conformes.
O seu sorriso
um rastro de leveza
como ramos e folhas
se reconhecendo
reverbera a força das palavras
que preservam a memória.
Não seria a experiência de beleza
o principiar de um universo
na inquietude dos nossos corações?
Doméstico
ouço o roçar do vento
e a imagem da minha mãe
outrora
e(terna)mente
reluzente.
A janela descortinando o amanhecer
a cozinha mergulhada num rio profundo
de luzes
o fogão a lenha
os seus olhos alentando o fogo
a fragrância de possíveis combinações
e transformações alquímicas
os sacramentos dos sabores.
Por ser de um azul infinito, meu filho,
que o céu me faz chorar.
E ainda que não seja em demasia
o florescer da alegria
quando esquecemos de esperar
as boas novas são anunciadas.
Com desembaraço e desprendimento
é que devemos estender
a todos
os nossos gestos de acolhimento
e solidariedade.
Inevitável, Deus se recria no fazer dos nossos atos!
Sinais visíveis de uma graça invisível.
A vida múltipla é renascer
a todo tempo e instante.
E Dona Aruína, o sorriso de descobrir
assunta, Lori, é o galim de No'Sinhor
louvando afinadim as empreita de Deus
aqui na terra.
São assobiozinhos de pura aligriagem
num é mesmo?