Bordados de luz
A luz de um azul orvalhado
esgarçando a plumagem enevoada
no espinhaço convívio
das terras altas e céu rasteiro
descortinando o mês de maio
em São Gonçalo do Rio das Pedras
instiga um sabiá do peito roxo
empoleirar o dourado sol
nos galhos de um pequizeiro.
Percorro o caminho que me leva para um café
com dedos de prosa com Dona Helena.
Helena Siqueira Torres
e as suas mãos lavradoras
pequenas e grandiosas
moldaram ao longo da vida
o seu Presépio de Ser.
Adentrar o portal da sua casa
contemplar a esverdeada luz
dos seus olhos
é penetrar sua ancestralidade.
Nas paredes caiadas
manchadas com as linhas de luz
que atravessam as frestas da casa
as Sagradas Faces, São João Menino
São Jorge Guerreiro, Santa Luzia
a Senhora do Perpétuo Socorro
o altar com o Divino Pai Eterno.
Um dia, Lori, eu sonhei
qu’eu tava num lugar bonito
que tinha uma roda de flores
essas florzinhas bonitas de campo
imitando uma rozinha vermelha
e uma voz que dizia:
lê o Evangelho de São Lucas.
Então, todo dia eu leio
o Evangelho de São Lucas
desde eu menina
qu’eu venho visitando o presépio.
Presépio qu’eu tôu ali
com boa vontade e paciência
primeiramente pra Deus
e depois pros meus dois filhos
o filho de sangue e o filho de criação
e ocê qu’eu considero o filho mais velho.
Deus num fez esse mundo sozinho
as portas e janelas do inferno
estão abertas pra tudo acontecer
é por isso que nós temos de fazer a nossa parte.
O seu universo pessoal
sempre me apresentou
como impossível de descrever
recordei as palavras de Mãe Gera
expressando certezas:
No dizer da verdade, Lôro,
no mundo tem de tê um pouquinho de um tudo
se não o mundo num há de ser mundo!
Seria o presente a soma
das lembranças irremediáveis?
Um dia desses, Lori, eu tava ali
lendo a bíblia e me aconteceu uma visão.
Uma mulher veio com um vestido
de florzinhas assim de um azul
bem disfarçado, quarado
os cabelos grisalhos numa trança grossa
me chamou na grade do portão
e me disse que voltava com as fotos.
Não voltou até o dia de hoje...
Dona Luizinha antes do meu nascimento
trouxe pra mim uma caixa de fósforo
e disse pra minha mãe que quando eu nascesse
eu ia ser um espirito de luz.
Tôu eu aqui e é por isso que acontece coisas assim comigo.
Nesse mundo tem coisa que a gente
vai trazendo na lembrança...
Aqui na sala de casa já aconteceu cinco velório
lembro como se fosse hoje
ela serena
com uma capinha azul cobrindo o corpo
o caixão feito com tábuas ajuntadas no quintal
sem tampa.
Estou aqui vendo ela minha bisavó, Ana Rosado.
Eu sinto num ter nenhum retrato dos meus parente
deles guardo somente as feição esfumaçando...
Os retrato é a presença das pessoa em memória.
Impiedoso o tempo se revela de muitas maneiras.
Aqui em casa toda noite
a fogueira era acendida no chão da sala
ao lado da fornalha de torrar farinha
pra rezarmos o terço
e as contação de história de pai e mãe
vó quentando fogo ficava cachimbando...
Um rio de histórias correu por sua vida
e o desvelo de duradoura herança
a autoridade toda qu’eu adquiri
eu agradeço a minha vó!
Coloquei em suas mãos
a mesma fotografia dos meus pais
emoldurada na memória
das minhas retinas
que me proporcionam ler
o além das letras e das imagens.
Meu Deus do céu!
Seus pais em memória, Lori,
gostei muito!
Vejo em memória os semblante
sua mãe bonitona
aqueles brincos antigos, coco e ouro
seu pai sério
o bigode naquele tempo era respeito
ocê herdou o olhado dele
com espaço de tempo a fisionomia
vai mostrando as aparência.
Em meadas desiguais
os bordados de luz.
A dor do parto, meu filho,
também pode ser a dor
de quem nasce
e não se perca nas incertezas
o coração do outro
é terra que ninguém pisa.
Palavras de minha mãe
num entardecer longínquo
com águas inundando
os meus olhos
e os canteiros no quintal.
Generoso como tantas vezes
o meu pai se fazia em palavras
meu filho, você já parou pra pensar
que o que você tanto afirma
como seu
pode não ser somente seu
ou só será seu
quando for
devidamente partilhado?
A mim só me restava dar nome
ao visível e ao invisível
nos exercícios de atribuir
sentidos a tudo.
Dona Helena sem querer soltar
as nossas mãos
procurando retardar a despedida
como em todos os nossos encontros
que Deus te dê força de inteligência
muita persistência
muita disposição de trabalho
pra ocê continuar a fazer tudo
o que ocê faz
ocê tem a luz de Deus te iluminando
te seguindo!
Manifestando agradecimentos
vislumbro no lume esverdeado
dos seus olhos
as ofertadas dádivas
pelo sucessivo e absoluto
milagre da vida.