Lira e Lori, o trabalho das mãos

Aurélio Buarque de Holanda, em seu Novo Dicionário da Língua Portuguesa, atiça a nossa memória, penetrando na intimidade do vocabulário de nossa língua, ao apresentar para a palavra “maturar”, por exemplo, uma abonação que lhe especifica o significado de “amadurecer”: “ Ela [ a árvore] nos fala… do sol estival , que lhe maturou os frutos”. 1

Ao falar do poder transformador do sol em fazer o amadurecimento dos frutos da árvore, o dicionarista nos faz lembrar o trabalho do Centro de Cultura Memorial do Vale, na lembrança que Lori Figueiró cria, com o seu poder transformador, dos frutos do trabalho de Lira Marques em Sementes da terra maturada.2 Poderia dizer que Lori torna mais visível, aumenta a luminosidade sobre o trabalho de Lira com as suas imagens e palavras, com o calor iluminador de seu afeto, o que provoca um certo amadurecimento, ou transformação, dos frutos e do processo de trabalho de Lira Marques.

Por outro lado, a própria Lira, ao trabalhar os seus frutos, faz uma certa maturação, ou transformação, que transfigura, espiritualmente, as terras do sertão  do Vale do Jequitinhonha, o que fica evidente pela ação transformadora de Lori.

Nessa ação transformadora, ambos, Lira e Lori executam, cada uma seu modo, os trabalhos das mãos. O que nos faz evocar a memória de Alfredo Bosi com o seu poema, Os trabalhos da mão.3

“Parece ser próprio do animal simbólico valer-se de uma só parte do seu organismo para exercer funções diversíssimas. A mão sirva de exemplo.

A mão arranca da terra a raiz e a erva, colhe da árvore o fruto, descasca-o, leva-o à boca. A mão apanha o objeto, remove-o, achega-o ao corpo, lança-o de si. A mão puxa e empurra, junta e espalha, arrocha e afrouxa, contrai e distende, enrola e desenrola; roça, toca, apalpa, acaricia, belisca, unha, aperta, esbofeteia, esmurra; depois massageia o músculo dorido.

[…]

Mas seria um nunca acabar dizer tudo quanto a mão consegue fazer quando a prolongam e potenciam os instrumentos que o engenho humano foi inventado na sua contradança de precisões e desejos.” (BOSI,1977)

É com suas mãos, por exemplo, que Lori, movido, afetivamente, pelo entusiasmo que o trabalho de Lira lhe provoca, multiplica os enquadramentos fotográficos e cria os diversos planos com os quais ganha relevo o trabalho da artista. E é com suas mãos, ainda, que Lori se apropria das palavras de Lira para aumentar a visibilidade desse trabalho.  E é com suas mãos, por outro lado, que Lori produz, também, palavras que acentuam essa visibilidade.

Maria Lira Marques Borges, Araçuaí, abril de 2019

Desse modo, fica claro que Lira, com o seu poder de “estuciar”muita coisa –  observar, pensar, investigar, pesquisar – deixa que a inquietude de sua alma a conduza, acionando a sua  curiosidade, quando, então, percebemos em seu trabalho os efeitos de tal ação espiritual. Se por um lado, tal ação mobiliza a apropriação recriadora de um componente artístico milenar, expresso na busca arcaizante dos pigmentos naturais com que cria o seu “nanquim”, dando forma e cor aos seres imaginários que inventa, por outro lado, produz, criativamente, um tipo de tela muito particular. Digo tela porque essa invenção é semelhante à função que ela aproveita do papel ao se valer do poder que o papel tem de ser suporte para a inscrição da arte. A partir dessa função presente no papel, Lira transfere para as pedras e para as esferas de argila esse poder de suporte artístico. E aí com o seu poder transfigurador, amadurecendo, ou maturando a terra, dá ela a essas novas telas o poder de abrigar a figura palpitante dos seres cheios de vida, produzidos pela alma ou pelo espírito que toma conta da força de suas mãos.

Com a força do espírito de artista, as máscaras de Lira, segundo as imagens fotográficas que Lori produz, devassam a intimidade de nossos rostos, os quais mostram a constituição do indivíduo como realização de personalidade, e produzem, com tal devassa,  uma certa desindividuação. Ou seja, produzem a expressão de uma certa invisibilidade que se torna visível: a força expressiva da verdade dos sentimentos humanos como algo transcendente, algo que se manifesta como essência espiritual do humano.

Caracterizando o trabalho de Lira, deve ficar claro que Lori  não expõe o corpo  orgânico da artista, ou seja as ações que ela realiza no seu cotidiano, às voltas com os seus comportamentos que se deslocam no tempo e no espaço, na extensão da materialidade, mobilizados por seus sentimentos e emoções, constituindo a sua história, a sua narrativa, o seu enredo, as suas intrigas num certo meio histórico e geográfico. Aliás, essa opção pelo corpo expressivo em Lira nos faz lembrar Clarice Lispector (BORELLI,1981),   “Não quero mais uma vida particular pois quando eu fico muito sozinha eu não existo. Eu só existo no diálogo.” 4 O que caracteriza o corpo de Lira é o seu corpo espiritual, no diálogo que ela estabelece com as criações imaginárias de sua paisagem imaterial. Nesse diálogo, que é expressão de uma inquietude de sua alma artística – a potência da inquietude é a força da alma – surge a importância das figuras esquemáticas de sua paisagem. Realizam elas, como ícones, a possibilidade de tornar visível o invisível, isto é, as vibrações afetivas que ativam a intensidade de seus pensamentos, pois os ícones não têm a responsabilidade artística de representar os objetos do cotidiano. A responsabilidade de tais ícones, ou quali-signos, é de serem eles aquelas figuras esquemáticas que liberam, repetindo, o invisível: a força do pensamento vibrando, a força dos afetos em intensidade.

E ai ficam evidentes outras atitudes intensivas de Lira: a força do narcisismo de vida presente na contemplação das criaturas artísticas, no encanto amoroso com tais criaturas, na exaltação da força da vida… Tudo isso lembra Buriti, lá, no Grande Sertão: Veredas5 : à beira do espelho das águas,  o que Buriti contempla é a paisagem azul do infinito do céu como objeto de amor identitário ao criar, desse modo, um narcisismo associado aos afetos de expansão do artista, o que caracterizaria  o caráter intensivo do espírito criador de Lira. Aliás, a esse narcisismo produtivo, se associa uma certa surpresa de Lira ao se ver no corpo de suas criaturas artísticas. O que nos leva a projetar, aí,  uma certa ocorrência da alegria do artista ao se ver no  diálogo da figura exterior com a figura interior, segundo Clarice Lispector. (LISPECTOR,1999): “Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo.” 6

Maria Lira Marques Borges, Araçuaí, abril de 2019

Lori, com o seu livro, que é também de Lira Marques, não faz um trabalho de divulgação. Isso porque se pode pensar que divulgar é, até certo ponto, vulgarizar ou banalizar o trabalho do artista, introduzindo uma negatividade que não acontece com as luzes que Lori encontra para Lira. O que ele faz é disseminar, criadoramente, a obra de Lira: vale lembrar que disseminar não nos deixa esquecer que no fundo da intimidade de sua vida de palavra existe o sentido de “fonte de vida”, o que está presente , ainda, em semente, em semear, em sêmen… O que Lori faz é espalhar, com o trabalho de Lira, as fontes de vida do Vale do Jequitinhonha, disseminando-as, como sementes, que dão fruto, por serem produtos espirituais  que estão presentes na figura humana que se humaniza, liberando as mãos para a ação criadora que o espírito, ou alma, impõe ao humano: aliás, aqui, o humano se realiza como humano por ter as suas mãos liberadas da tarefa de fazer, por exemplo, com as mãos, as tocas ou buracos do chão, mas a de, com as mãos,  criar as figuras vivas de seu espírito.

O que Lori faz, enfim, fiel à instituição do Centro de Cultura Memorial do Vale, é trazer para um público ampliado, a memória dos frutos do trabalho de Lira, e de seu processo de trabalho, exibindo, para que não caia no esquecimento, o poder de transfiguração, ou transformação que a alma  da artista realiza, como fonte de vida espiritual, semente, que vai maturando uma paisagem imaginária, potencializando, com tal prática, uma certa imagem do Vale do Jequitinhonha. É por isso que o livro, trabalho das mãos de Lira e Lori, se chama Sementes da terra maturada.

Referências

1  FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira S.A. [1975] . p. 900.

2 FIGUEIRÓ, Lori. Sementes da terra maturada. Belo Horizonte: Ramalhete, 2017.

3 BOSI, Alfredo. Os trabalhos da mão. In: _____ O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1977. p. 53-57.

4 BORELLI, Olga. Clarice Lispector: esboço para um possível retrato. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 48.

5 ROSA, João Guimarães Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1967. p. 235.

6 LISPECTOR, Clarice. A surpresa. In: _____ A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 23. ( 19 de agosto de 1967).