Das muitas formas de dizer o tempo

Que tempo é esse...

Fotografias do livro Das muitas formas de dizer o tempo

Sopé

No vale
o chão
pinta as portas

Adri Aleixo

Reza

Há uma senhora linda
com quem divido a sorte dos dias
cantamos aos rios às estrelas
são rezas à senhora do Rosário
ponho nomes em contas pequenas
Catopês espalham pelo Vale

Adri Aleixo

Ladainha para um dia qualquer

Com alguma sorte
ela pode dividir o dia em dois
manhã e noite
como quem divide o chuchu
e reparte entre os filhos
suas bocas rotas
famintas
o dia
a casa
essa membrana invisível
medrando afora vontades
o dia
que ainda sendo noite é dia
e não termina até que se faça sopa
até que se tenha água
esquente o fogão
a serpentina
os muitos banhos
os quartos
cobertas
velas
rezas
dorme com Deus, mãe!

Adri Aleixo

Oratório

Este pó
estes santos
foram netos, mães, meninas
quando morre um anjo
deixam-no assim suspenso
entre preces e fitas
- Todos os dias esse oratório me ensina a partir

Adri Aleixo

As latas na cozinha

Agora que virou o ano
a cozinha tem alguma ou outra novidade
a folhinha do Cristo na parede
o anúario do papa
e as latas de pêssego e goiabada
que embora tenham ganhado alças
pousam na janela como pássaros

Adri Aleixo

Cristaleira

entre as duas taças
a xícara lascada
respira

Adri Aleixo

Estante

Entre tantos viventes da casa
descansa
no santinho da estante

Minha única experiência de amor

Adri Aleixo

O recado do morro

O luar estava muito branco
um pedacinho de mata aparecia longe
dava para separar as flores azuis dos pau-terra
a vista era cansada
tinha lido muita coisa nessa vida
e nessa hora atalhava
ouvia tudo
o recado
se chove se faz sol
o morro fala
a cerração confirma
o gado espera
o tempo é quem faz tocaia
e sorrateiro avisa
A história é a mesma, embora já seja outra

Adri Aleixo

Sequência

A fé em buscar a pedra
a mais cava, arredondada
moldá-la à concha da mão
os muitos carinhos todos
em beijá-la com dedos
quase musicais
afora o sol batendo nelas

Há um fio, filigrana

ela a vê: propensa e grave
e lhe traz à vida

Adri Aleixo

Ampulheta

A folha pendeu-se do galho
e verde ainda agarrou-se ao telhado
não demora setembro, até que ela caia
marrom e devagar
neste dia aprendi do tempo:
a cor
a queda
o silêncio

Adri Aleixo

As poucas árvores
que não foram arrancadas
fazem sombra às pessoas
que vivem por insistência

minha mãe me põe a benção
orgulhosa de eu vir pra cá

voltasse eu no tempo
que só se gasta
ficaria na roça

gamelas enormes
peneirando farinha
amparando minhas mãos às suas
arrastando-nos ao infinito

Adri Aleixo

Mulher da roca

Se o sol batesse nela
a essa hora do dia
teríamos a imagem de um jarro
as mãos em cálice amparando
o som os fios
olhando mais de perto, sentiríamos vivos
a casa, os móveis
as folhas de carvalho
onde vivem a neta, os filhos
falaríamos de coisas complicadas e outras elementares
de certo, eu acharia tudo doído
mas ela diria: é o ciclo

Adri Aleixo

Itinerário

Ela grita para o vento
vem,
há uma árvore que plantei antes do
tempo
o umbuzeiro, esta lacuna
um trançar de pés, essa ternura
aqui todo lugar é sempre
todo som é canto e sol
mas pensa os caminhos do coração
porque a vida é escolha
e há entre arrulhos e signos
este itinerário de chão

Adri Aleixo

Estiagem

Ela traz um rio no corpo
e o rio dentro dela
só quer ser mais fundo

Adri Aleixo

Artesã

Miguilim gostava dela
queria estar perto, vê-la compor as bonecas
respirando a flor de buriti
hálito de terra e fibra
Ela compunha as saias das bonequinhas
uma a uma
desenhava os rostinhos com cheiro de chuva colhida com as mãos
e pintava os olhos pequenos
olhos de ver pra dentro
o céu dentro do morro

Adri Aleixo

O campo de cebolinhas

Pensou no rastro quente da última coivara
era dia, era quente, mas era úmido
pegou no caritó a imagem santa e foi correr
os campos
era dia dezenove
e antes de sentir o molhado da chuva ou
o tamborilar da primeira telha
seus pés agradeciam
os campos se enchiam

Adri Aleixo

Cumeeira

Para cessar o peso do dia
poderás ir ao telhado
lá, há um precipitar de chuva e pulo
uma vista para o descampado
é lá onde secam as palavras
e coragem é uma espécie de ruindade
lá, duas águas se encontram

Adri Aleixo

Retorno

Ontem foi a última vez
que seus olhos viram
isso que chamamos de vida
ela sorria a pele cheirando a terra
o sol se demorando nela
a voz cheia de horizontes anunciava:

- a vida te prepara pra partir

Adri Aleixo

Retorno

este friso
entre
água e rio
morro, casa, curva
Este chão sempre de mim partindo

Adri Aleixo

Das muitas formas de dizer o tempo

A vida muitas vezes era uma janela sem nenhuma poesia
não eram muitos os que se sentavam na soleira da porta
o tempo, embora parecesse muito, era privilégio de algumas plantas,
estas, sábias de sua necessidade cresciam rápido
prestativas para lhes oferecer algo
era preciso dar conta da vida, assoprar a fuligem
antes que ela se impregnasse na alma
é que às vezes as coisas boas são temporãs
e aparecem sempre roídas pelas horas
de todo modo espreitavam a lua e o canto da coruja
era o tempo quem dava lição de plantar
de nascer e de morrer
mas sabiam, no inteiro de seus seres
que o Vale é o lugar de quem vive o sol inteiro

Adri Aleixo